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sexta-feira, 18 de março de 2011

A ida


Quando eu morrer esqueça as exéquias
Não quero lágrimas, muito menos soluços em vão
Apenas o silêncio menor da minha hora derradeira.

Deixe os meus pés aquecidos, bem unidos
Mas o violão, este num varal colorido, solto ao vento
Para os pássaros cantarem em sol seus cantos de liberdade.

Quando eu morrer doe minhas relíquias
O maior tesouro de verdade eu mesmo levo e sou
Sou lua no breu do cais, vento dos vendavais
História que um dia o mar levou.

A cada brilho lunar, em todo pôr do sol
Presente estarei à sua presença, paixão desmedida
Porque nada acaba um amor avassalador
Nem mesmo a noite vazia da lenta e morna despedida.


rsf/2007


*Guernica, de Pablo Picasso 

quinta-feira, 17 de março de 2011

A mala, a lama e a alma: o anagrama pré-carnavalesco de um povo


Onze horas da noite na pacata Maragojipe. Uma movimentação inusitada interrompe o sono da noite lá pelos lados da Enseadinha, comunidade humildemente pesqueira, ligada umbilicalmente ao tradicional e extenso bairro da Enseada. E não era vai e vem de pescador indo e voltando do mar. Estamos quase no dia 05 de março, mas restam ainda algumas horas de penumbra até a chegada do próximo dilúculo. Tempo suficiente para o sobrenatural tornar a alimentar o imaginário cultural maragojipano.
A madrugada se aproxima e é cúmplice do ritual secular que de novo está prestes a acontecer. O acanhado templo de São Pedro, incrustado nas proximidades do vasto manguezal, é o ponto de partida desta fábula carnavalesca que celebra a amizade e a irreverência de um povo, que se comunica com espíritos e ri das desgraças com o mesmo entusiasmo com que festeja a vida.
Sebão, do alto dos seus um metro e oitenta, foi o primeiro a chegar à esquina de professora Lealda, acompanhado de Mimito, Zé Mário e do risonho Bartola. O “grande” Mumunga veio logo em seguida, com uma mala de couro antiga numa das mãos. Da esquina dos Correios, com a fala embolada de tanta birita sorvida mais cedo em Zé do Sinal, Xêra provoca: “O dinheiro da caixa foi parar nessa mala, né, pacoteiro?”, numa clara alusão ao golpe da pirâmide aplicado na cidade há cerca de dois anos. A trambicaria lesou o bolso da maioria dos maragojipanos, embora outros tantos tenham se “armado”. Mas, a mala em questão, continha apenas velas e lençóis.  
A trupe se dirigia à capela de São Pedro, a fim de iniciar os preparativos para a saída, à meia-noite, do Cortejo das Almas, costume popular que invade as ruas de Maragojipe exatamente na véspera dos festejos carnavalescos. Reza a lenda, que os antepassados repetiam o ritual todos os anos, com o intuito de buscar proteção espiritual extra para os dias seguidos de agitação, festa e folia.
Todos prontos para deixar o templo, quando Sebão, com sua voz grave, pergunta: “Quem se encarregou de trazer o bumbo?”. Em uníssono, o restante do grupo respondeu: “Toinho Galinha!”. Eis que, ao longe, ouviram o rufar de um instrumento desafinado. Os amigos se entreolharam e, usando os ouvidos tal qual um GPS, caminharam até a entrada do Beco dos Canudos.
Não dava pra enxergar muito com a escassa iluminação do lugar. Sabiam, apenas, que algo ou alguém estava vindo do lado de lá. De repente, o bumbo se “calou”. Um silêncio sepulcral tomou conta das imediações da olaria de Kikito. Foi aí que, quase com o coração saindo pela boca, Bocoió apareceu do nada e saiu gritando: “É assombração, porra!”. A turma saiu em disparada, desesperada, tropeçando um no outro e arrancando, dos pés, cabeças de dedo pelo caminho.
No final de tudo, o vulto negro nada mais era do que Toinho Galinha, todo enlameado, do pé à cabeça, parecendo que tinha saído de dentro do mangue naquele exato instante. Passado o susto, refeitos os ânimos, alguns escarmentos depois, partiram as “almas” rumo ao silêncio das ruas e aos olhares trépidos da noite, em busca de protegimento e diversão.
O carnaval daquele ano transcorreu na mais pura tranquilidade. Os espíritos entenderam a “mensagem”. Os nossos “aliados” resguardaram a cidade e os foliões durante todo o período momesco. O ritual secular das almas novamente foi bem sucedido e a preservação da paz tinha sido garantida com muito sucesso.
E mais uma vez os amigos, cada qual em suas casas, tiveram que ouvir muito na manhã seguinte. Mas todo ano é a mesma ladainha. Os lençóis brancos utilizados no rito são apanhados “por empréstimo” nos guarda-roupas da Enseadinha.
Tudo em nome da tradição e da perpetuação da felicidade, ou melhor, da insistência em ser humano e mais uma vez em ser feliz.

rfs/mar2011


*Starry Night (Noite Estrelada), de Vicent Van Gogh